Sexta, 06 February 2015 00:00

Ano novo, casa nova, vida nova

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Por conta das circunstâncias, a mudança de casa da família teve que acontecer dia 31 de dezembro e, por isso, dia 1 de janeiro foi o dia da arrumação. A pressa obrigou a encaixotar tudo que tinham, sem escolher nada, mas agora era a hora abrir cada caixa e decidir se manteriam essas coisas em suas vidas ou se as jogariam fora.

A gata foi a primeira a começar. Decidiu jogar fora a caixa de papelão, que trazia consigo desde que fora abandonada na praça, ainda filhote. Junto com a caixa de papelão, jogou também as lembranças de passar frio e fome, já que hoje tinha o abrigo de um lar. Livrou-se também do vício de comer mais do que precisava, pois a comida não faltava mais.

Depois veio o cachorro. Ao abrir sua caixa de mudança decidiu jogar fora sua antiga coleira e junto com ela as lembranças de quando passava o dia acorrentado. Aproveitou e se livrou também da angustia daquela época que o fazia andar em círculos até hoje. Não precisava mais fazer isso. Tinha um amplo quintal para se exercitar. Andar para frente é muito melhor que andar em círculos.

Em seguida, veio a menina. Abriu sua caixa e decidiu jogar fora um velho boneco de um homem de terno. Junto com o boneco aproveitou e se livrou das lembranças de um pai ausente e frio. Hoje, o pai tinha mais tempo e experiência, e passava mais tempo com a filha. Se decidisse manter as lembranças do passado, no futuro poderiam dificultar seus relacionamentos com o sexo oposto.

A mãe abriu sua caixa. Jogou fora diversas fotos da adolescência que mantinha escondidas. Nessas fotos aparecia com um namorado da época, e até ontem se perguntava se não deveria ter casado com ele. Hoje, sabia que se não jogasse isso fora nunca seria feliz com o atual marido. Jogou fora.

Chegou a vez do pai. Sua caixa era grande. Começou jogando fora o uniforme do seu primeiro emprego, de vinte anos atrás. Junto com o uniforme jogou fora a mentalidade de pobreza, de que tudo é caro e difícil, e que o dinheiro nunca dá para nada. Entendeu que se começasse o ano pensando assim, terminaria o ano se sentindo pobre. Depois, o pai encontrou um cinto velho de couro e decidiu se livrar dele também. Junto com o cinto se livrou das lembranças do tempo de criança, quando apanhava muito, do pai bêbado. Entendeu que assim se livraria também da violência que ele mesmo, às vezes praticava contra a família, incluindo os animais, os amigos e os colegas de trabalho.

Começar um ano novo é uma grande oportunidade de viver uma vida nova, mas intenção só não leva a nada. Nossas vidas são resultados das nossas experiências da infância, que moldaram nosso modo de ver o mundo, que produz nossos pensamentos, que formam nossas emoções, que resultam em nossas palavras e atos, que por fim definem o que é a nossa vida.

Um ditado popular diz que olhando de perto ninguém é normal. Outro diz que de médico e louco todo mundo tem um pouco. Tem também aquele que diz que todo mundo tem um cadáver escondido dentro do guarda roupas. Neste caso, o guarda roupas significa o passado e o cadáver algo ruim que aconteceu e se quer esconder.

Jogar lembranças fora é uma metáfora. Muitas vezes isso não é possível. Enterrá-las é pior, pois mesmo no profundo do inconsciente, elas ficam ativas e atuantes e sempre vem nos assombrar. Mas jogar luz sobre elas, compreender suas influências em nossas vidas e nos desapegarmos delas pode ter resultados surpreendentes e rápidos.

Querer uma vida nova praticando pensamentos antigos é inútil. Fazer duas vezes coisas iguais e querem resultados diferentes é burrice. Se alguém quer resultados diferentes em sua vida, precisa primeiro mudar a si mesmo. Ter autoconsciência do por que a gente é do jeito que é, do por que a gente faz as coisas que faz e pensa do jeito que pensa é uma grande ferramenta para construir a mudança. Para mudar nossa vida é preciso ter coragem de jogar coisas velhas fora. Humildade para jogar convicções antigas fora, para desaprender hábitos arraigados e procurar e aceitar novos conceitos.

Assim que terminar este texto vou vasculhar meu guarda roupas e me livrar do cadáver.

E a sua caixa? Será que você tem alguma coisa que precisa jogar fora para ter um feliz ano novo?

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