Ana Cristina Dutra Guerra, bióloga, mestre em Genética e Melhoramento Vegetal, professora universitária nas áreas ambiental e da saúde


    A população mundial tem vivido os impactos causados pelo aquecimento global, como calor excessivo, secas prolongadas, inundações, furacões, dentre outros. Várias causas têm sido apontadas, mas é preciso, também, analisar o problema sob a ótica dos nossos hábitos alimentares.

    Em 2006, um relatório da ONU concluiu que a pecuária mundial gera quase 20% das emissões dos gases de efeito estufa, ao passo que os automóveis, aviões, trens e barcos geram, em conjunto, cerca de 13% da emissão de gases responsáveis pelo aquecimento global.

O gás metano, eliminado na flatulência das vacas, tem efeito térmico cerca de 23 vezes mais alto que o do gás carbônico.. A situação é ainda mais alarmante, se considerarmos que cada animal expulsa até 200 litros de metano/dia. Além disto, as fezes do gado gera óxido nitroso, o qual tem efeito térmico cerca de 300 vezes maior que o das emissões de CO2..

Temos ainda que considerar os altos índices de desmatamento para a criação de gado: a pecuária ocupa quase 1/3 de toda a terra do continente da América Latina. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) estima que cerca de 70% da vegetação foi convertida em pastagens, o que tem favorecido o aquecimento global, já que as árvores absorvem CO2 para a realização da fotossíntese.

    Em 2009, a produção mundial de carne foi estimada em 280 milhões de toneladas e considera-se que este volume pode duplicar até 2050. O aumento da industrialização implica em aumento proporcional do consumo mundial de carne. A média de consumo per capta no mundo industrializado é de 80 kg/ano, enquanto nos países em desenvolvimento este consumo cai para cerca de 30 kg/ano.

No Brasil, 44% da produção agrícola é destinada aos animais que, ao serem transformados em alimentos, são consumidos por uma reduzida parcela da população, já que a vasta maioria não tem poder aquisitivo para comprar carne. Deste dado, pode-se facilmente intuir que um número maior de pessoas poderia ter acesso a uma alimentação vegetariana de qualidade, se a parcela da população com poder aquisitivo mais alto reduzisse seu consumo de carne.

Nos Estados Unidos, a terra destinada a produzir alimento para o gado é de 64%, enquanto que apenas 2% são destinados para a produção de vegetais para consumo humano.

Outro impacto negativo decorre da expansão das fronteiras agrícolas, principalmente no Amazonas e em biomas como o Cerrado e o Pantanal, para o plantio de soja, usada na produção de ração.

Nos últimos anos, a produção de soja no Amazonas cresceu 425%, o que resulta no aumento dos focos de calor na região, já que a produção de soja está diretamente relacionada aos índices de desmatamento na área.

A situação fica ainda mais crítica se considerarmos que, ao se introduzir uma espécie nova num ecossistema (no caso específico, a soja), a espécie invasora apresenta vantagem competitiva em relação às nativas, porque não tem inimigos naturais no ecossistema onde foi introduzida. Sendo assim, a espécie exógena tem maior chance de sobrevivência que as nativas e geram maior número de descendentes, vencendo a competição, o que resulta no desaparecimento das plantas nativas. Com isto, ocorre desregulação do ciclo hidrológico, do C e do N, dentre outros. Há, ainda, desequilíbrio do controle biológico natural, porque as cadeias alimentares são alteradas.

    Outro fator depredatório do meio ambiente ocasionado pela pecuária intensiva é a deterioração das condições físicas do solo. O pisoteio do gado provoca compactação, o que implica em redução da capacidade de infiltração da água no solo e aumento da susceptibilidade à erosão. Além disto, a pastagem provoca diminuição do teor de N, P e de alguns micronutrientes vegetais, como Mn, S, B e Zn.

    Assim, o desmatamento associado ao uso intensivo da terra provoca o fenômeno de desertificação, ou seja, o empobrecimento de ecossistemas áridos, semi-áridos e sub-áridos, pelas atividades humanas.  

As regiões mais afetadas pela desertificação são as áreas produtoras de gado, como o oeste americano, a América Central e do Sul, a Austrália e a África subsaariana. No âmbito global, a quantidade de terra tornada improdutiva pela desertificação anualmente é de 21 milhões de hectares.

    Outro aspecto a ser considerado quando se analisa a cadeia de produção de alimentos é a quantidade de água consumida: na irrigação de lavouras, a água ingerida pelos animais, na sua alimentação e na indústria. Para efeito de comparação, enquanto 39 litros de água são gastos para produzir um quilo de tomates, 2.794 litros são usados na produção de um quilo de carne suína e até 20.700 litros para a produção da mesma quantidade de carne bovina.

Desta forma, não é difícil concluir que a pecuária intensiva contribui, enormemente, para a escassez de água em certas áreas.

    Há, ainda, que se atentar para a questão da poluição das águas, porque a explosão da população de animais de corte resultou numa explosão paralela de resíduos animais: a quantidade de resíduos gerados por um rebanho de 10.000 cabeças equivale aos excrementos produzidos por uma cidade de 110.000 habitantes.

    O nitrogênio proveniente destes resíduos é convertido em amônia e nitrato, que contaminam as águas de superfície, matando a vida aquática, e infiltra-se também nas águas do subsolo.

    O consumo de energia na indústria da carne também é enorme.    A produção de ração é um processo que requer intenso consumo de energia: bombear água, arar, fertilizar cultivar os campos; colher e transportar a colheita e, finalmente, fazer funcionar as indústrias que transformam toda esta energia em carne, laticínios e ovos.

Enquanto 2 calorias de combustível fóssil são gastas para produzir 1 caloria de proteína de soja, 78 calorias de combustível fóssil são consumidas para produzir 1 caloria de proteína de carne. Ou seja, a produção de proteína de carne requer 39 vezes mais energia que a de soja.

Há, no mundo, suficiente terra, água e energia para alimentar mais que o dobro da população humana. Contudo, metade dos grãos produzidos é destinada aos animais, enquanto milhões de pessoas passam fome. Em 1984, quando centenas de etíopes morriam diariamente de fome, a Etiópia continuava a exportar milhões de dólares em alimento para o gado europeu.

    A cada dia 38.000 crianças morrem em decorrência da desnutrição e da fome (uma a cada 2,3 segundos). Enquanto isto, 7 kg de cereal e soja são gastos para produzir 1 quilo de carne bovina; 2,7 kg para produzir 1 kg de carne suína; 1,3 kg para produzir 1 kg de carne de galinha ou ovo.

    Estes dados mostram que 100.000 pessoas poderiam ser nutridas usando a terra, a água e a energia que seriam liberadas se os países ricos reduzissem seu consumo de carne em 10%. Com os cereais empregados na produção de um bife de 225 g, 40 pessoas poderiam ser alimentadas.

    Disto conclui-se que a criação de gado tem impactos enormes e de amplo alcance sobre a biosfera, em razão dos alimentos animais serem muito menos eficientes em sua produção que os vegetais. Isto porque muito daquilo com que alimentamos o gado se transforma em subprodutos não comestíveis ou simplesmente é desperdiçado nos processos metabólicos.

    É importante lembrar que a ética deve permear todas as ações humanas e, sob este prisma, temos que avaliar os custos de nossas escolhas alimentares: os impactos ambientais inerentes ao processo de produção do alimento, a saúde de quem consome este alimento e, ainda, um assunto a respeito do qual as pessoas não gostam de pensar: as condições cruéis com que animais de corte, vacas leiteiras e aves são criados, transportados e, finalmente, abatidos de forma desumana.