Terça, 15 Fevereiro 2011 13:30

O Cavalo de Petrópolis

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Ao ter notícias do drama das enchentes no Rio de Janeiro, em especial ao ver na TV a cena chocante da senhora que fora resgatada de sua casa, prestes a desabar, segurando nos braços um cachorrinho – o qual em seguida foi solto e levado pelas águas enquanto ela era içada para cima de outra casa, amarrada a uma corda – tomei a imediata decisão de partir para lá, mas para ajudar no resgate e cuidados dos animais e não das pessoas.


Liguei para o Dr. Ricardo Coutinho, presidente da Anclivepa-SP (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais) que redigiu uma carta de recomendação à defesa civil local, pedindo que aceitassem minha ajuda. No mesmo instante, Ângela Caruso fez a ponte com a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal) e com a GAPA, ONG de Petrópolis que me incluiu em seu time.

Recrutei Sheila e Letícia, duas integrantes da minha equipe, que eu sabia que não abririam mão de ir comigo. Então, pegamos a estrada. Devo ter sido o primeiro veterinário de fora do RJ a chegar à região, assim que as águas baixaram.

A ONG GAPA, coordenada pelo distinto casal Carlos Eduardo e Rose, pelos serviços anteriores já prestados ao município de Petrópolis, tinha um passe livre, que nos permitia circular mesmo pelos locais restritos, desde que conseguíssemos fisicamente chegar a estes locais.
 

Petrópolis fica em uma região linda, mas provavelmente não é local para construir uma cidade. Só há morros e fundos de vale, e muitas casas em ambos os locais. Muitos morros desabaram, trazendo junto as propriedades de gente de alto poder aquisitivo e os vales ficaram inundados, com destruição total das casas, principalmente a dos pobres.

Nossa primeira missão seria o Vale do Cuiabá, vila de pobres, totalmente destruída, onde nos relaram que havia um cavalo preso aos escombros e que precisaria ser sacrificado. Fomos preparados para isso.

A cena era horrível. Um belo cavalo branco, prensado entre a parede de uma casa que resistiu e uma montanha de escombros, entulhos, galhos de árvores, etc. O cavalo se apoiava em três patas e suspendia a traseira esquerda, que estava muito inchada.

Arrastamos as madeiras que apertavam seu tórax e, lamentando minha pouca experiência com cavalos, passei uma corda pelo seu pescoço e tentei puxá-lo. Ele era muito grande e não queria sair de lá. Várias pessoas tentaram e nada. Ele nos olhava e fazia que “não” com a cabeça.

Os cavalos têm olhos enormes e expressivos e este não era diferente. Era um olhar assustado e de dor, que pedia ajuda, mas não colaborava em nada. Com o insucesso das nossas tentativas começaram as sugestões de eutanásia ali mesmo. Aquela situação de sofrimento não poderia continuar.


 

Todos, sensibilizados com a posição desconfortável, com a agressão física e visual dos escombros e com a pata inchada pediram que eu fizesse a eutanásia do cavalo branco.

Aproximei-me dele novamente e cochichei em sua orelha:

- Sai daí, amigo, se não sair vai ser o fim da linha para você, vem, vem. – E puxei o cavalo novamente. Ele olhava para mim e balançava a cabeça negativamente. Até gente da minha equipe me pressionava para acabar com aquele drama logo. Eu não podia! Sabia que a pata estava inchada, que não apoiava, mas não havia, logicamente, uma radiografia para eu me embasar, não dava nem para encostar a mão na pata dele, por conta dos escombros.

Eu não podia aceitar aquele diagnóstico e apoiado pela Dra. Rosane, veterinária de Petrópolis, decidi deixá-lo lá. Preparei analgésicos e antiinflamatórios e apliquei. Procurei diminuir sua dor por algum tempo. Deixaria ele lá até o dia seguinte, onde então trariam outro veterinário, que entendesse mais de cavalos que eu, que de fato não entendo nada, e ele faria o que precisaria ser feito. Tentei puxá-lo uma última vez e nada. Disfarcei as lágrimas e partimos dali.

Na saída do Vale do Cuiabá, chegou a notícia de que havia um cachorro preto machucado. Então, começamos a procurá-lo no que havia sobrado das construções abandonadas. De repente o Carlos Eduardo saiu de uma casa em ruínas. Nada do cachorro preto, mas trazia nos braços uma cachorrinha mestiça de poodle, com uma barriga enorme, que ele encontrou sozinha, aninhada em um sofá molhado, se preparando para ganhar filhotes lá mesmo, na ausência da família que havia saído às pressas da casa e a deixado à própria sorte. E deu sorte, pois foi resgatada pelo GAPA.


Dali foram dois dias circulando pelas regiões devastadas. Pela minha experiência de segunda participação em resgates pós-enchentes (o primeiro foi São Luis do Paraitinga, em 2010), parece que, para os cães, é 8 ou 80. Nestes casos, ou morrem, afogados ou soterrados, ou sobrevivem são e salvos.

Vimos muitos casos de berne e miíase, mas que talvez nem tivessem ligação direta com a tragédia. O drama maior era o abandono. Após o salve-se quem puder dos humanos, e muitos infelizmente não se salvaram, os animais são deixados para trás.


Era uma infinidade de cães vagando de um lado para outro. Seguindo a primeira pessoa que passava por perto. Depois, ao ver que dali não vinha ajuda, passavam a seguir outro, para o outro lado. O que fazíamos nestes casos era deixar uma boa marmita, cheia de sache com molho, para garantir pelo menos um dia de boa alimentação, e distribuíamos pacotes de ração em todas as vilas e abrigos humanos, pois sempre tinha alguém que se dispunha a distribuir a ração entre os animais que estivessem por perto.

Numa das paradas em abrigos, conhecemos um garoto, que trazia um ratinho no pescoço. Ele se orgulhava ao nos contar que fugiu nadando, mas não deixou seu amigo para trás. Fez questão de salvar o rato também. Em seguida, o grupo descobriu uma senhora, que foi identificada como sendo a dona da cachorrinha poodle, que estava dando cria sozinha na casa abandonada. Perguntei:

- A senhora é a dona dela mesmo?

- Sou sim senhor.

- E não deu para tirá-la da casa? - Continuei.

- Não deu, tive que juntar as crianças primeiro. – Ela explicou.

-Mas e depois? Por que não voltou? As águas já baixaram. Não tinha esperança de ela ter sobrevivido?

- Olha moço, não sei nem para onde eu vou com a família, ainda mais com cachorro.

Não respondi, em respeito à situação dela, mas comparei com a atitude do garotinho do rato.

Nossa última missão no domingo, segundo dia da nossa viagem, seria tentar chegar a um abrigo de cães, que estava isolado, após o desaparecimento da estrada que chegava até ele.

Foram cerca de duas horas de caminhada por trilhas, carregando garrafas de água e sacos de ração nas costas. Em alguns momentos motociclistas praticantes de MotoCross passavam por nós, com o intuito de ajudar, mas também pelo desafio de chegar de moto a lugares praticamente inacessíveis naquele momento.

Após a longa caminhada, as notícias se confirmaram. O abrigo era no pé de um morro, que desabou e soterrou os canis. Salvaram-se apenas os animais que estavam soltos. Deixamos a ração, descansamos um pouco e começamos o retorno, separados do grupo, eu, a Sheila e a Letícia. Eu pensei em duas coisas: chega de desgraça e ainda bem que não preciso carregar mais nada nas trilhas do caminho de volta.

Ledo engano! Ao nos distanciarmos uns quinhentos metros do abrigo, dois motoqueiros nos pediram ajuda. Um terceiro estava deitado no chão. Havia caído da moto, enfiado a perna no atoleiro, que fez uma alavanca e quebrou sua perna. Fratura exposta na tíbia. O calcanhar encostava-se no joelho.

O jovem foi colocado sobre uma porta que estava disponível e foi improvisada como maca. De início apenas nós cinco para tentar carregá-lo, mas não dava. Ele uivava de dor. Só de encostarmos na madeira para erguê-lo ele já implorava para paramos. Estávamos no meio do mato, em local inacessível para carros nem helicópteros, sem a menor previsão da chegado do resgate, que além de ter muitas outras emergências, talvez nem conseguisse nos localizar direito, tendo que percorrer trilhas enlameadas por uma distância considerável.

O rapaz empalidecia e suava frio. Pensei umas três vezes antes de me oferecer para sedá-lo. Os médicos que me perdoem ou critiquem, mas com o consentimento dele, o colocamos no soro com glicose e depois apliquei uma ampola de morfina. Esperei mais um pouco e outra dose. Logo ele foi voltando à cor, segurou na minha mão e agradeceu:

- Doutor, estou bem melhor, podem me carregar.

Neste meio tempo chegaram mais alguns motoqueiros, e carregamos, com bastante dificuldade, o rapaz de uns 90kg  até a estrada, onde foi posto em uma pick-up e depois entregue aos bombeiros.

Então, dei por encerrada nossa participação e retornamos para São Paulo. Sujos, molhados, mas com a impressão de termos contribuído um pouquinho para ajudar alguns em meio a tanta desgraça.

Já em São Paulo, no dia seguinte, tivemos duas boas notícias: Kadu, o motoqueiro, já havia sido operado e passava bem. E sobre o cavalo branco, no dia seguinte, quando a outra equipe chegou para eutanasiá-lo, o encontraram longe dos escombros, pastando, com as quatro patas no chão.

Veterinário Wilson Grassi

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