Sexta, 29 Outubro 2010 14:35

A ilha do abandono

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Protetora Inês e os cachorros da 1ª balsa


Acompanhado da minha amiga Ângela Caruso, vistoriei uma situação que por um lado é especial, mas que por outro retrata fielmente a questão do abandono de animais na cidade de São Paulo, e com certeza no Brasil de uma forma geral: A ilha de Bororé, que apesar do nome fica dentro do município de São Paulo.


Ponto de embarque da balsa

Para se ter uma idéia da distância, para chegar lá, primeiro precisa-se ir até Interlagos, o que para mim que venho da zona leste já é distante. De Interlagos seguimos para o Grajaú e no caminho encontramos nossa guia, a protetora Inês. De lá direto para Shangrila, isso mesmo, Shangrila, onde segundo a lenda existe a poção da juventude eterna, que infelizmente não encontramos.


Placa ignorada pela população

É exatamente de Shangrila, as margens da represa bilings, com vista para o rodoanel, que pegamos a primeira balsa, que leva automóveis, ônibus e cachorros, para a ilha do Bororé. Isso mesmo, cachorros. Há uma infinidade deles nos pontos de embarque e desembarque das balsas, junto aos pequenos comerciantes que vendem alimentos aos que ficam esperando a balsa.


As margens do Rodoanel

Foi duro de acreditar, mas entrevistando os condutores das balsas, posso confirmar as denúncias: Alguns “filhos de Deus” atravessam a balsa com o cachorro na coleira, e os soltam do outro lado da represa para que os animais não consigam retornar. Seguimos mais um pouco pela estrada de terra que corta a ilha e chegamos na segunda balsa, que vai para o outro lado, em São Bernardo. Encontramos a mesma situação, mas desta vez os relatos incluem que além do abandono ser quase diário, inúmeros cães embarcam sozinhos na balsa, e atravessam a represa várias vezes por dia.



Balsa fazendo o trajeto do abandono de Animais
 

Eu perguntei: - E pode?

- Pode! Disse o condutor, não precisa pagar passagem.

- Ah tá, entendi. E eles não caem na água? - Questionei curioso.

- Não, eles esperam a balsa atracar antes de descer. – Me  explicou o comandante da embarcação.


Até os jegues vivem soltos

Na volta, após visitarmos contatos da Inês, que ajudam a cuidar de alguns animais abandonados na região, eu já comemorava uma vistoria destas sem ser obrigado a resgatar nenhum bicho – coisa que só faço mesmo se for caso de vida ou morte –quando vimos debaixo de um ponto de ônibus uma cena chocante: Um rottweiler grande, coberto de feridas e moscas, sem conseguir se levantar, e que não pesava 20 quilos, quando o normal seriam 50 quilos.


Parada para um café

Neste caso não tem jeito, resolvi resgatar nem que fosse para eutanasiar, se não tivesse outra solução. Como o cachorro estava literalmente podre, eu precisava ao menos forrar a parte de trás do meu carro.


Uma das resgatadas pela protetora Inês, após ter sido esfaqueada nas margens da balsa

Era uma estrada, não tínhamos nada que servisse. Olhei ao redor e a únicas coisas que vi eram banners de plástico da Dilma, pendurados nas árvores e fazendo propaganda política. Como não tinha outro jeito, arranquei várias fotos da Dilma e com elas fiz uma boa forração na parte de trás do carro. Levantei o cachorro facilmente, que não pesava nada e o coloquei no carro. Nesta mesma hora saiu do meio do mato um militante do PT e começou a nos ameaçar, dizendo que a propaganda nas árvores estava autorizada e que estava chamando a turma para nos dar uma lição. Assim que ele se acalmou expliquei que não era uma atitude política, mas sim um motivo de força maior. Ele resmungou mais um pouco, mas nos deixou seguir, após anotar a placa do carro.



Carros e Cães aguardando o embarque

 


Mais dois dos encontráveis animais às margens da balsa

Enquanto isso, o rottweiler não se fez de rogado e imediatamente deitou-se sobre a cama improvisada com os banners da candidata e dormiu a viagem toda de volta.

Quanto à situação do abandono na região da balsa, vamos tentar levar alguns mutirões de castração para lá, pedir a instalação de câmeras e sugerir a punição dos “filhos de Deus” que forem identificados.



Bororé antes do resgate

 


 Cartaz da Dilma que ajudou no resgate de Bororé
 

O Rottweiler, que foi imediatamente batizado de Bororé, após quinze dias do resgate, com sinais de neoplasia e insuficiência renal e esgotados todos os recursos terapêuticos, infelizmente foi mesmo eutanasiado. Pelo menos teve um fim digno e foi tratado com carinho e conforto em seus últimos dias.


Cachorro desacompanhado dormindo na balsa em movimento

Quanto à disputa presidencial, acho que o Serra estava mais preparado para dirigir o Brasil, mas não posso negar que a Dilma me deu uma boa força no resgate do cachorro Bororé.

Veterinário Wilson Grassi

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