Quarta, 13 Outubro 2010 18:45

Alguns olhares

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Nossas memórias às vezes nos traem, esquecendo nomes de pessoas que conhecemos, ou datas importantes, como aniversários ou mesmo compromissos. Por outro lado, algumas outras lembranças ficam registradas para sempre.


Algumas pessoas são boas para lembrar números de telefones, ou placas de carro. Outras nunca esquecem uma fisionomia ou uma conversa, lembrada depois em todas as suas palavras. Já alguns, como eu, registram e não se esquecem mais de alguns olhares.

De todas as partes de corpo que podem falar por si mesmas, sem a ajuda de palavras, os olhares talvez sejam as expressões mais simples e ao mesmo tempo também as mais completas e talvez por isso possam ficar tão fortemente gravados em nossas memórias. Como exemplo, a felicidade transmitida pelo olhar brilhante de um bebê, contente ao ver a mãe se aproximar para pegá-lo no colo, ou a ternura, nos olhos de uma mulher apaixonada e que se entrega ao seu companheiro para fazer amor e não sexo. São exemplos de olhares, que por si só carregam uma forte carga emocional e dispensam palavras para se fazer entender.


Um olhar cerrado de um pai severo, ou de um chefe durão, também já mostram seu significado facilmente. Na minha memória recente trago dois olhares que me emocionaram. O primeiro deles de uma criança.

Bairro nobre, terreno grande, casa própria, mas caindo aos pedaços. Dois idosos, ou talvez não fossem tão idosos, mas estavam envelhecidos e descuidados a ponto de aparentar mais idade do que tinham na realidade. Cuidavam, ou melhor, tentavam cuidar, de cinquenta cães e duas crianças, seus netos, largados pela mãe que caiu no mundo e não deu mais notícias.



Enquanto minha amiga Sissi, pegava a menina de uns três anos no colo, e deixava suas perninhas à mostra, cobertas de feridas de sarna sarcóptica, infestação que provavelmente dividia com os cães, a outra criança, de cabelos compridos, que de início julguei ser menina, mas era um menino, me olhava.

Ele estava atrás das grades de um portão de ferro. Segurava em duas barras do portão, com as mãos na altura do rosto. Encostava o nariz em outra barra central, que dividia seu rosto em duas partes. Seu olhar vinha partido ao meio e transmitia muito mais que tristeza e carência. Era um olhar tão repleto de informações, que trazia consigo, em minha direção, toda a degradação em que aquela família vivia: a sujeira, a pobreza, as doenças físicas e emocionais e a sentida ausência da mãe e do pai que ninguém nem sabe quem é nem onde está.


Tudo isso em “apenas” um olhar. O outro olhar que também custo a esquecer não era humano. É de um cão. Um cão de abrigo, como outras dezenas de milhares que esperamos estar ajudando. Ele também estava atrás de grades, ele também olhava para mim, sentado, quieto, enquanto seus companheiros de canil pulavam nas grades e latiam de forma automática.  Já o animal que me olhava sereno, parecia ter consciência do que estava acontecendo com ele. Seus olhos tristes me penetravam fundo e perguntavam por que a vida é assim e o que ele fez de errado.

Seu olhar mostrava que ele sabia que nunca mais sairia daquele canil de 20 metros quadrados e que jamais teria uma família para realizar seu único objetivo na vida, que era expressar seu amor pelas pessoas. Este olhar também era “apenas” um olhar, mas daqueles que motivam milhares de pessoas, como eu, e provavelmente você, que está lendo este texto, a dedicar as nossas vidas a uma causa, mesmo que sacrificando nosso lado pessoal, ao invés de fingir que está tudo bem, com este mundo que custamos a aceitar.

Veterinário Wilson Grassi

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