Segunda, 27 Setembro 2010 16:09

Laços de família

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Me chamou a atenção, durante uma das inúmeras visitas que faço a abrigos de cães e gatos, a preocupação com os laços emocionais e familiares dos animais, no abrigo da Acãochego, na cidade de Juquitiba.

Lá, os animais que foram resgatados juntos, amigos ou parentes, só são dados em adoção juntos. Ou seja, se o adotante quer a mãe, vai ter que levar o filho, e se quer o filho, talvez tenha que levar a mãe, dependendo da circunstância. Se quer adotar um cão que tem amizade de longa data com outro, tem que levar seu melhor amigo junto. “É uma atitude de respeito aos laços afetivos do bichos”, me explicou a Presidente da Ong, Vera Leite.

Isso me remeteu a uma situação que acontece no meu quintal. Lá tem uma gata, que chegou antes de mim e deu cria no telhado. Assim que desmamou os gatinhos, levei os filhotes para minha clínica, castrei e doei quase todos. Um deles encalhou. Após cerca de quatro meses sem que eu conseguisse um adotante, resolvi levar o Fred de volta para minha casa, onde tenho outros gatos. Aos poucos ele e a mãe foram se reaproximando e agora estão sempre juntos. Mãe e filho optaram pela companhia um do outro e não pela companhia dos outros gatos, o que sugere que eles percebem que existe um laço especial que os une.

Outra prova é uma história da qual testemunhei o começo. No início deste ano (2010) acompanhei um grupo que protetores à cidade de São Luis de Paraitinga, para tentar prestar algum auxílio aos animais que sobreviveram a enchente que devastou a cidade. Após algumas ações, estavamos nos preparando para voltar quando ouvimos um miado vindo de uma casa em ruínas, destruida pelas águas e prestes a desabar. A informação que tivemos de Sra Ana Nery, que já estava prestando auxílio aos animais da região, é que ela havia conseguido resgatar uma mamãe gata dos escombros, mas infelizmente deixado dois filhotes que se esconderam. Consequentemente este miado só poderia ter vindo de um dos filhos. Imediatamente a protetora de animais Sheila de Freitas pulou a fita de segurança que cercava o imóvel, entrou na casa prestes a desabar e só saiu de lá quando conseguiu resgatar um dos filhotes, que saiu do forro do telhado. O outro não veio e após muitas tentativas foi deixado para trás.

Durante semanas Ana Nery providenciou água, comida e uma armadilha. O filhote comia e bebi a noite, voltava para o forro e não entrava na armadilha. Quando se aproximou a data em que o imóvel seria demolido pela Prefeitura, Ana fez sua última e desesperada tentativa. Buscou no lar provisório a gata mãe anteriormente resgatada, soltou-a entre os escombros e foi embora. Dias depois recebeu um telefonema avisando-a que mae e filho estavam presos na armadilha e assim puderam ser recolhidos antes dos tratores derrubarem a casa. Foi obra de Deus? Foi a Ana? Foram os laços de família que permitiram a mãe conduzir o filho à armadilha? Não sei, mas com tantos exemplos, para mim fica difícil negar que cães e gatos reconheçam ou desenvolvam laços afetivos.

E deixo um convite a reflexão: Será que estes laços emocionais também existem entre as vacas e seus bezerros ou porcas e seus leitões, que as vezes estão sobre a nossa mesa enquanto comemoramos os nossos laços de família?

Boa pergunta!

Veterinário Wilson Grassi












 

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