Segunda, 30 Agosto 2010 17:01

Plácido e o resgate no rio

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Plácido é um protetor de animais clássico. Por mais que prometa a si mesmo resistir, não consegue negar ajuda a alguém ou a algum animal. Professor de escola pública há vários anos, está sempre em luta com o orçamento, pois sempre sobra mês no final do salário e tem que fazer mágica para garantir a ração dos peludos.

Dia destes teve uma boa notícia ao chegar à secretaria da escola:

- Plácido, agora você vai sair da miséria. Foi chamado para uma entrevista na Secretaria de Educação. Parece que você está cotado para ocupar um cargo de assessor. Tem que usar gravata e tudo. Vai ganhar uma gratificação extra. Vai até poder emprestar um “din-din” aqui para mim. – disse uma colega de magistério sorrindo.

Mais tarde, já em casa, Plácido e D. Vilma, sua mãe, – com quem morava após a separação de sua esposa – foram escolher um terno para Plácido ir a reunião:

- Plácido, não adianta escolher muito não. Ou você usa o paletó cinza, que usou no seu casamento, ou o preto, que usou no casamento do seu primo Adílio.

- Mãe, o cinza não entra mais. Engordei um pouco e o preto está cheio de pelos brancos do Rex, que aproveitou a porta aberta e foi dormir dentro do guarda roupas. - queixou-se Plácido.

- Nada que um rolinho de esparadrapo não resolva. – disse D. Vilma, já providenciando a limpeza.

No outro dia, Plácido acordou cedo, fez a barba, se aprontou todo e saia apressado quando ouviu Dona Deínha chamando:

- Seu Plácido, Seu Plácido. Nossa, que bonito que o senhor ta! Parece até doutor advogado. De gravata vermelha e tudo.

- Diga dona Deínha, o que aconteceu? – Perguntou com pressa o professor.

Dona Deínha era uma vizinha que muitas vezes oferecia lar provisório para os inúmeros animais que Plácido resgatava da rua, tratava, castrava, vacinava e doava.

- Seu Plácido, o senhor não vai acreditar. Sabe lá no córrego, atrás da metalúrgica? Tem uma cachorrinha que tá dando cria em cima de uma tábua e a tábua ta dentro do rio. Tá quase despregando da margem e pegando a correnteza.

Plácido olhou para o relógio. Tinha uma hora para a entrevista na Secretaria de Educação.

- Vamos lá. Vamos ver o que está acontecendo. – E saíram em direção à metalúrgica.

Chegando à margem do rio, avistaram realmente uma cachorrinha marrom, de tamanho médio, dentro de uma gaveta de cômoda velha, amamentando alguns filhotes. A gaveta estava em parte flutuando e parte ancorada na beira do rio, balançando com o fluxo da água e ameaçando se soltar.

- Meu Deus, D. Deínha, se a gaveta se soltar, vai descer o rio e ali na frente ele está canalizado. Eles vão entrar na tubulação e não sei onde vão parar.

Sem perder tempo, Plácido tirou o paletó e passou-o para as mãos da amiga.

– Não deixe ele sujar, tá bom? Tenho uma reunião.

Plácido desceu pelas margens cobertas de mato e se aproximou da cachorrinha. Como toda mãe assustada, a cachorrinha rosnou para o desconhecido. Plácido tentou então puxar a gaveta para cima do barranco, pegando pela lateral.

- Não dá, a gaveta é pesada e a cachorra está assustada, querendo me morder. – disse, virando-se para D. Deínha, que também havia descido o barranco e já estava arrastando o paletó preto pelo mato.

- Deínha, precisamos de uma cordinha. Vou tentar laçar a boca da cachorrinha. Me ajude a procurar.

- Não to vendo cordinha nenhuma aqui, seu Plácido e olha só, a descarga do esgoto da metalúrgica tá subindo o nível do rio e a gaveta tá se soltando. Ela tá indo embora com os filhotes. Vai entrar na tubulação. – Desesperou-se a ajudante.

Plácido precisava agir rápido e laçar a boca da cadela para poder retirá-la da caixa antes que fosse tarde demais. Olhou uma última vez ao redor, não achou nada que servisse e como último recurso, tirou a gravata vermelha, fez um laço e com agilidade de quem tem experiência com cachorro bravo, amarrou a boca da cadelinha. Enfiou literalmente o pé na lama do rio e com uma mão foi passando os filhotes de um em um para D. Deinha – que a esta altura já tinha largado o paletó preto em qualquer lugar – enquanto com a outra mão segurava a gaveta. Por fim carregou a mamãe para cima, os deixou sob a guarda de D. Deínha, e correu para pegar o ônibus rumo à Secretaria de Educação.

Não se sabe se foi o atraso de uma hora, ou a gravata molhada, ou a camisa com pegadas caninas, ou o terno preto cheio de carrapicho, ou o sapato sujo de barro, mas já se sabe que a reunião terminou, a promoção ficou para outra ocasião e não foi desta vez que Plácido tirou o pé da lama.

 Wilson Grassi - médico veterinário -   O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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