Quinta, 12 Agosto 2010 17:01

Mundo cão

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Há dias me sinto muito mal. Desde minha visita a uma cidade da região metropolitana de São Paulo. Fui lá a pedido de algumas protetoras, para avaliar a possibilidade de realizar um mutirão de castração. Levaram-me para conhecer duas situações em especial:

A primeira delas é de uma senhora, que vou chamar de D. Antonia. Ela mora em sua casa com o marido e mais alguns cães, segundo ela, 90 cães. Eu acredito que possam ser mais de 140.

Como a casa praticamente não tem quintal, ficam quase todos dentro de casa, espalhados por 7 ou 8 cômodos grandes. A casa estava limpa, os animais fisicamente saudáveis e aparentando estar bem nutridos. Castrados? Não! Apenas uma cadela. Alias, por algum motivo que não consigo entender, 95% dos animais da D. Antonia são fêmeas, para a felicidade dos 5% dos machos.

Ao entrar, uma legião de cães pulou em cima de nós. Todos queriam a mesma coisa: carinho e atenção. Um cafuné, um carinho na orelha, uma palavra amiga. Eram lambidas por todos os lados, que me fizeram refletir sobre por que os cães gostam tanto de nós humanos, sendo que não merecemos.  Não seria melhor para eles se gostassem da companhia dos outros cães?

Quando leio artigos de colegas veganos pregando o fim da domesticação, concordo que cavalos preferem a liberdade e a companhia de outros cavalos ao invés de puxar carroças. Bois e vacas preferem um pasto sossegado e até mesmo os gatos de vida livre preferem e só confiam na companhia de outros gatos. Mas os cães são diferentes. Mesmo sem espaço, sem sol, sem vento, e, às vezes, com alimentação insuficiente, ainda veneram o “seu” humano e querem por todas as maneiras sua atenção e companhia.

Eu mesmo tenho uma cachorrinha velhinha, tem 16 anos, e anda com enorme dificuldade, mas se eu levanto do sofá para ir a cozinha buscar um copo de água, não adianta eu pedir ou sair de mansinho, pois ela percebe e se esforça ao extremo para se levantar e ir mancando atrás de mim. Apenas para ficar ao meu lado. Quando volto ao sofá, ela se joga aos meus pés, e preciso levantá-la e ajeitá-la em sua almofada.

Voltando à D. Antonia e seus cães, eu perguntei como a situação dela e deles se tornou tão grave. Ela me disse que são todos animais abandonados. Não sei. Talvez uma parte seja, mas tenho a impressão que foram nascendo e nascendo e quando ela se deu conta... Se é que se deu conta, a situação já estava dramática para eles e ela.

Dificuldades em se desapegar de seres e coisas também devem ter influenciado.

Saímos da casa dos cães e fomos a um bairro mais rural conhecer outras senhoras e outros bichos.

Vou chamá-las de D. Esmeralda e D. Pérola. Enquanto Pérola cuida de cerca de 60 gatos, Esmeralda cuida de cerca de 100 cães. Pérola seguiu uma receita que nunca falha. Junte dezenas de gatos em um local úmido, com pouco sol e pouca ventilação, dê uma ração mais ou menos e está pronto: gatos tristes, magros, com olhos remelando, nariz escorrendo, espirrando e com diarréia. Viroses que provavelmente nunca curaram.

Em uma caixinha, uma mãezinha com quatro filhotes agonizando, já puxando o ar, perguntei a origem. Ela me contou que uma “madame”, vinda de São Paulo em um carro bacana, procurou por ela e disse que não podia mais ficar com a gata e os gatinhos, pois não tinha tempo nem espaço. Deixou alguma ração e a caixa com a família para Pérola cuidar. Na hora pensei, que humana desprezível essa madame.

Esmeralda divide sua turma. Enquanto os cães pequenos ficam em seu quintal, os grandes ficam em um terreno íngreme, atravessando a rua de frente a sua casa. Cada um tem um telhadinho para proteger do que vier de cima e um estrado, para proteger do que vier de baixo, e uma corrente para prendê-lo, afim de evitar fugas e brigas.

Ao me avistar, uma cadela, grande e magra ficou de pé. Projetou o corpo para frente, ficando presa pela corrente. Ergueu as duas patas da frente para o alto e chorou, querendo carinho de um humano. Eu também chorei, levantei meus braços, toquei com as palmas das minhas mãos suas patinhas que ainda estavam no alto e depois a abracei por algum tempo. Enxuguei o choro, virei as costas para a cachorra e voltei para minha casa. Agora entendo que não sou melhor que a madame que abandonou os gatos. Sou da mesma espécie que ela: humano e desprezível.

Wilson Grassi - médico veterinário -   O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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