Terça, 06 Julho 2010 17:18

O Analista de Bagé da Proteção Animal

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O Analista de Bagé é personagem folclórico, obra prima de Luis Fernando Veríssimo, grande escritor gaúcho, e filho de Érico Veríssimo, outra lenda da nossa literatura.

O Analista é um psiquiatra que se diz freudiano, mas usa técnicas rudes, como empurrar os pacientes para o divã, dar tapas nas orelhas, sacudidas e joelhadas, ou joelhaços, como ele mesmo diz, para tratar as angustias dos seus clientes. Atende com trajes típicos gaúchos, descalço, tomando chimarrão e cortando as unhas com um facão. Mesmo assim, tem muitos clientes, pois resolve todas as suas crises emocionais, apesar do uso de técnicas pouco ortodoxas.

As histórias do Analista me vieram à lembrança há alguns dias, por conta da minha visita à cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul, para participar de um seminário sobre controle reprodutivo de cães e gatos.

Apesar da fama vinda com os contos do Veríssimo, que pintam os bageenses como rudes e machistas, as pessoas da cidade não se parecem em nada com a caricatura. Os homens são gentis e educados e as mulheres simpáticas e atuantes na sociedade.

De forma geral, a cidade é bonita e bem cuidada. Problemas? Eu vejo o de sempre: Incontáveis cachorros pelas ruas. Nas praças, nas calçadas, na rodoviária, nos bares, no ponto de táxi, em praticamente todos os lugares. Verdade que não me pareciam doentes, alias, pareciam gordinhos, ainda bem, já que lá o frio às vezes beira zero grau, pois é bem perto da fronteira com o Uruguai, e pensar nestes animais dormindo na rua neste frio é de cortar o coração.

A cidade de Bagé está sendo pioneira no Rio Grande do Sul, pois por um lado ela já tem um programa de controle reprodutivo, que atua castrando cães e gatos e por outro lado, aprovou uma lei semelhante a da cidade de São Paulo, que obriga a castrar estes animais antes que sejam vendidos, quando for este o caso.

Da mesma forma que aconteceu em São Paulo, o assunto gerou polêmica e muita discussão. Os criadores de cães de forma geral são contra. Não desejam arcar com os custos das cirurgias e defendem o direito de “tirar um cria” da “sua propriedade”.

Alguns veterinários, ainda não acostumados com esta tendência irreversível, do Poder Público viabilizar castrações em massa, têm ainda receio de que os cães sejam exterminados em dez anos e todos os veterinários fiquem desempregados e seus filhos passem fome. Fato este que, convenhamos, nunca vai acontecer, mesmo porque nunca as castrações são tão em massa assim, como deveriam ser para representar um controle efetivo da população animal.

No máximo, amenizam um problema, que ainda se mostra sem solução próxima. Estudos apontam que para diminuir efetivamente uma população canina necessitariam ser esterilizados 60% dos animais daquela região em um mesmo ou curto espaço de tempo. O maior programa que conheço, que é o da Cidade de São Paulo, esteriliza cerca de 1% da população por ano. Ou seja, o número de animais que nasce supera largamente o número dos que são castrados, portanto não há risco de extinção da espécie, muito pelo contrário, a população animal ainda vem aumentando.

Tem também o lado dos protetores, que cansados de resgatar bicho de rua e não ter mais onde colocar nem como cuidar, querem sair castrando a esmo, o que não é o melhor caminho, pois tudo necessita planejamento e preparação para atingir os melhores resultados.

Tive a oportunidade de conhecer o prefeito de Bagé, que assustado com a gritaria, está tratando de por panos quentes, ou melhor, panos frios, para esfriar o assunto. Só espero que ele não se furte em continuar apoiando o programa de controle reprodutivo e de efetuar a fiscalização sobre a nova lei aprovada que controla o comércio de animais naquela cidade.

Fico só imaginando quais os métodos nada convencionais que o Analista de Bagé utilizaria para resolver esta situação e promover a paz entre estes grupos de interesse. Sei pelos contos que ele gosta de animais.

Wilson Grassi - médico veterinário -   O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
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