Terça, 06 Julho 2010 16:34

O mundo seria melhor se todos fossem candidatos

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É inegável que algumas pessoas são mais solícitas que outras. Em especial, quem é candidato a alguma coisa e precisa de seu voto. Mais ainda em época de eleição. O que não é necessariamente ruim. Pena que não tem eleição todo ano.

Aqui em casa mesmo, se minha esposa fosse candidata, para conseguir meu voto, com certeza cozinharia meus pratos favoritos todos os dias. Meu filho caçula seria exemplo de educação, e entre outras coisas, gentilmente ofereceria a TV da sala para eu assistir aos jornais.

Eu mesmo, se candidato fosse, já teria consertado a torneira elétrica da pia da cozinha, antes que o inverno termine. O Dunga então, se tivesse necessidade de agradar, teria cedido aos clamores populares e levado o Ganso e o Neymar para a Copa e talvez tivéssemos mais sorte contra os Holandeses.

Meus funcionários na clínica, chegariam no horário e trabalhariam sorrindo, atentos aos menores detalhes. O gerente do banco, este também poderia ser um ótimo candidato a algum cargo. Sairia autorizando nossos empréstimos e pagando nossos cheques, mesmo que não tivessem fundos.

E não só as pessoas, os órgãos públicos também funcionam melhor em época de eleição. É só reparar se não tem uma rua tendo o asfalto recapeado perto da sua casa por estes dias, ou alguma calçada sendo consertada. São obras por todos os lados, em intensidade muito maior em relação aos anos que não têm eleição.

Lembro-me de um fato engraçado ocorrido há vários anos: Em frente a minha clínica tem uma praça com um ponto de ônibus e outro de táxi. Uma das luzes que iluminavam a praça queimou e deixou tudo muito escuro. Como se passara um bom tempo e nada de a Prefeitura trocar a lâmpada, resolvi ir até a Subprefeitura da região para solicitar a substituição. Peguei minha senha e logo fui chamado ao guichê, onde uma simpática atendente me esperava.

– Moça, eu queria pedir para trocar a lâmpada de uma praça, pois queimou e está muito escuro. É perigoso à noite.

– Pois não Senhor.

Após anotar o endereço, a moça perguntou se era só isso e eu disse que sim. Então, ela sorriu marotamente e cochichou:

– Senhor, estamos em ano de eleição e a Prefeitura está gastando. Querendo fazer obras, entende? Por que o senhor não aproveita e pede mais alguma coisa?

Eu não esperava por esta oportunidade, mas não me fiz de rogado:

– Ah é? Então posso pedir? Já que você falou, o piso da praça está bem ruim. Acho que nunca foi arrumado. Seria bom se pudessem tapar uns buracos que tem lá. – A moça começou a digitar e ia repetindo para mim:

– Trocar a lâmpada e tapar os buracos.

E continuou:

– Senhor, por que não aproveita e pede para por um piso na praça? 

– E pode? – Perguntei.

– Pode! Aproveita que é ano de eleição.

– Ah, então quero sim que coloque um piso. Escreve aí, um piso tipo aquele que tinha na avenida Paulista, acho que se chama pedra portuguesa.

A moça prontamente retomou a digitação:

– Trocar a lâmpada, tapar os buracos e colocar um piso de pedras portuguesas.

– E tem também os jardins que estão horríveis. Será que dá para fazer um paisagismo?

– Dá, vou adicionar o paisagismo na solicitação do senhor.

Aí, eu fui me empolgando, nunca imaginei que seria tão fácil conseguir melhoramentos para o meu bairro.

            – Moça, para terminar, já que nossa praça vai ficar tão bacana, acho que para ficar perfeita só faltaria uma fonte de água, mas daquelas que à noite ficam iluminadas. Por favor, você pode incluir isso? Já que a Prefeitura está podendo, vamos aproveitar, né? – Disse eu já me aproveitando da situação.

– Trocar a lâmpada, tapar os buracos, colocar piso de pedras portuguesas, paisagismo e fonte com iluminação noturna. Algo mais? – finalizou a atendente com um sorriso.

– Não senhora, assim está ótimo. Quando começam as obras? –  Perguntei.

– O mais rápido possível. Vou mandar sua solicitação ainda hoje para o setor que cuida dos serviços.

– Voltei para o bairro não me cabendo de felicidade. Procurei logo pelos taxistas e contei as novidades. Tudo o que eu havia conseguido na Subprefeitura para melhorar o nosso bairro:

– E as obras começam logo, hein! Vocês vão ter um pouco de incômodo com a reforma, mas depois valerá à pena. A praça ficará linda!

Os dias foram passando, as semanas também e nada da reforma começar. A eleição também passou. No final, os taxistas fizeram uma vaquinha e chamaram um eletricista particular para trocar a lâmpada da praça.

Era muito bom para ser verdade, mas na minha inocência acreditei.

Vários anos depois, como eu não esquecia aquele mico que passei, insisti e pelo menos parte do meu projeto para a praça foi concretizada. Voltei na repartição, mas já escolado, preparei um abaixo-assinado pelos moradores, levei antes para o Trípoli abençoar e depois procurei direto pelo subprefeito dizendo:

– Olha, a população exigi melhorias e o vereador também quer ajudar. O que dá para fazer?

Nem a fonte iluminada nem as pedras portuguesas saíram, mas até que deram uma razoável ajeitada na nossa pracinha. Portanto, caros, aproveitem, pois está aberta a temporada em que o Poder Público está mais propenso a atender nossos pedidos. Pena que não tem eleição todos os anos.

Ah, eu não vou arrumar a torneira da cozinha tão cedo, rs...

*Wilson Grassi - médico veterinário -   O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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