Sexta, 10 Abril 2009 22:34

(2008/10) Lei regulamenta comércio de pets

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Caros editores da conceituada revista Cães e Cia,


Ao ler a reportagem Alerta aos Legisladores, da edição n. 353 [outubro de 2008], não pude deixar de manifestar minha contrariedade, com uma reportagem que me pareceu tendenciosa, onde diversas pessoas foram escaladas para criticar e apenas uma para defender a Lei que Regulamenta o Comércio de Cães e Gatos, na cidade de São Paulo, e ainda, sem o defensor ter o conhecimento das críticas que ali seriam feitas.

 


Por isso, tomo para mim a responsabilidade de rebater algumas colocações publicadas:

 

 

 

 

Conhecimento de causa zero: esta Lei foi elaborada por dois anos, inúmeras pesquisas foram feitas, trabalhos científicos lidos, tudo isso por uma assessoria parlamentar composta por algumas pessoas que lidam com a defesa dos animais há mais de 20 anos, e sabem com o que estão lidando.

 

 

Setores relevantes da sociedade não foram ouvidos: Representantes de diversos seguimentos já estiveram presentes no gabinete que trabalhou na Lei. Inclusive alguns que ilustram esta reportagem. Agora, o fato de ouvir todos os lados não significa que se possa atender todas as reivindicações, muitas vezes contraditórias, em um determinado momento.

 

 

Cirurgia aos 60 dias pode causar medo, agressividade e abandono: primeiro, é preciso dizer que a Lei do Comércio não fala em momento algum que a castração deve ser feita com exatos 60 dias. Ela afirma que a castração deve ser feita antes da venda, que pode ser após os 60 dias. Com relação ao trauma, com as experiência de quem realiza estas cirurgias com freqüência, posso afirmar que a recuperação de um animal jovem é de tal forma rápida, que às vezes 30 minutos após o procedimento os animais já estão brincando e se alimentando normalmente.

 

 

A castração precoce pode promover alterações hormonais: sim, logicamente promove estas alterações, tendo em vista a retirada de órgãos produtores de hormônios, porém, as alterações são extremamente positivas, pois reduzem drasticamente as incidências de tumores de mamas e de próstata, além de prevenirem tumores de útero, ovário e testículos, além da tão freqüente piometra.

 

 

Considerações sobre o “patrimônio genético”: não há evidências de que a purificação de uma raça seja algo positivo para todos os animais nascidos deste processo. Na verdade existem diversas evidências em contrário, principalmente relacionadas a animais nascidos com deficiências físicas congênitas, problemas crônicos de saúde e partos distócicos, que apesar da escassez de dados estatísticos, sugere ser mais freqüente em animais de raça pura que em animais mestiços. Na própria edição 353 da Cães e Cia, apresenta uma reportagem que destaca os problemas genéticos do Bulldog, por exemplo.

 

 

Efeitos recessivos na economia e diminuição do número de animais: Nos EUA o anormal é um animal que não seja de criador, não ser castrado. O normal é ser castrado, e mesmo assim eles têm a maior população canina do mundo. Isso acontece a décadas e não se imputou efeitos recessivos a este tipo de cultura.

 

 

Criadores comerciais x hobistas: a própria reportagem admite a contrapartida de dinheiro nas transações dos hobistas. Veja bem, dinheiro não vem carimbado. O dinheiro da venda de um filhote de um hobista, bem pode servir para trocar o carro, fazer as compras de supermercado do mês ou pagar as contas de água e luz. Se todas as atividades das pessoas comuns, que originam dinheiro são controladas e taxadas, por que a exclusão desta atividade?

 

 

Preocupação com destino dos dejetos, via águas fluviais: é do conhecimento de todos a existência de zoonoses, ou seja, doenças transmissíveis dos animais aos homens e vice-versa. Leptospiroses, toxoplasmose, raiva, verminoses, micoses, acaríases, etc. Será assim tão descabido, o poder público se preocupar com a contaminação das águas fluviais com os resíduos de uma criação que às vezes pode ter dezenas de animais?

 

 

Em filhotes castrados jovens aumenta incidência de mortes: uma afirmação como esta deveria estar comprovada cientificamente, e não esta. Estudos brasileiros estão em andamento e trabalhos americanos apresentam números de 1 óbito para cada 2 mil cirurgias, isso tanto para animais jovens como para adultos.

 

 

Críticas a técnica do gancho: não deveriam ser feitas, a não ser que o crítico fosse um veterinário, de preferência cirurgião, o que não foi o caso, pois o crítico não é veterinário. Qualquer técnica cirúrgica tem a sua segurança baseada na experiência, qualificação e capacidade técnica do cirurgião e sua equipe. A afirmação de que 15 entre 30 filhotes morreram é tão grave, que deveria ser imediatamente comunicada ao Conselho Regional de Medicina Veterinária para investigações, caso fosse procedente.

 

Para finalizar, não podemos assistir inertes, à situação de milhares de animais despejados nas ruas por desinteresse de seus antigos donos. O Brasil tem hoje cerca de 30 milhões de cães, a segunda maior população da espécie no planeta. Muito além do que os brasileiros poderiam cuidar adequadamente.




 

Muito obrigado pela atenção,

 

 

Veterinário Wilson Grassi

 

Clínico de Cães e Gatos

 

Diretor de Bem-Estar Animal da Anclivepa-SP

Assessor Parlamentar do Vereador Roberto Trípoli

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